Ser feliz no nosso mundo

Mente Sã

Quando descobri a doença de Crohn tinha regressado a Cabo Verde havia dois anos. Este regresso ao berço tinha um sabor agridoce. Estava no meu país, mas longe do meu ninho São Vicente, quase tão equidistante da europa devido aos preços elevados dos bilhetes de viagem o que não permitia escapes com frequência. Não deixava de ser boa esta proximidade e eu passava as festividades importantes em São Vicente e, apesar de ter família próxima e amada na cidade da Praia, não havia em mim a sensação de lar.


Passear pela cidade da Praia nos dias de hoje é observar uma evolução galopante nos últimos 10 anos (antes disso não posso falar porque só a visitava nas férias). Esta transformação passa pela melhor organização dos arruamentos, pelo embelezamento de alguma áreas da cidade, pela oferta de produtos e diversidade do comércio, inclusive na simplicidade de um café. A cidade evoluiu, ficou mais bonita, infelizmente não mais segura apesar de alguns esforços de melhoria da eletricidade nas vias públicas mas isso já seria outro texto.


Quando cheguei lembro-me da alegria da minha tia ao levar-me ao supermercado do grupo Calú & Ângela na Achadinha onde, segundo ela, podia encontrar de tudo. Perante os meus olhos cheios dos supermercados europeus a minha deceção face a expectativa foi instantânea. E, nem vale a pena falar dos preços.


A Electra era outra dor de cabeça com os cortes de eletricidade quase todos os dias, e a falta de água cíclica. Havia dias que só queria um batido de frutas mas até esse desejo simples era impossível de concretizar.


O mercado da Praia era outra dor de cabeça. Era mais pequeno do que é hoje, menos higiênico, desorganizado e nada apelativo mas com legumes frescos o que o tornava numa necessidade, e lá ia eu ansiosa por beringelas, uma alface estaladiça e rúcula que eram quase impossíveis de encontrar nessa altura mas regressava feliz com a papaia, as mangas e a mandioca fresquinha. A relação com o mercado da Praia, nessa altura, era de amor e ódio.


Os motivos indicados acima, junto com o calor húmido, os mosquitos, as moscas, a lentidão dos serviços, os taxistas, a oferta limitada na área da saúde, entre outros, faziam com que eu tivesse motivos para reclamar todos os dias e muitas vezes no mesmo dia.


Relembrando este tempo posso dizer que depois de 7 anos a viver fora do meu país, estava a sofrer um choque de realidade. Mas nem tudo era mau havia a praia, o sol o ano inteiro, as frutas tropicais, a família e os amigos. Não era infeliz, até porque passava a vida em viagens, mas a constante contestação a tudo era esgotante física e emocionalmente.


Não posso afirmar que toda esta conjuntura favoreceu o despoletar da doença, mas sendo o Crohn uma doença que está ligado a forma como experienciamos as emoções, tenho a certeza que a forma como eu experienciava a vida na altura não ajudou. A contar com as inúmeras refeições que fazia fora de casa temos um cenário favorável para que tudo evoluísse de forma rápida.

Lembro-me de ter acordado um dia sem luz e cheia de calor devido ao ar condicionado que tinha deixado de funcionar.

Vivia no Palmarejo, numa destas casas com a janela do quarto para o saguão o que fazia qualquer noite sem ar condicionado um inferno de calor ou de barrulho. Ainda lembro-me da vontade furiosa de praguejar que me invadiu, contra a Electra, contra o calor, contra os meus vizinhos… este arrebatar de raiva fez-me parar por um segundo e o meu cérebro enviou-me a seguinte mensagem: se não consegues combater nem vale a pena reclamar, é esforço inútil. Nesse preciso momento, parei… parei tudo e parei de reclamar. Era muito cedo, tenho o hábito de madrugar assim que fui tomar um banho frio e, como era sábado, fiquei a espera que a minha amiga acordasse para aliciá-la a ir a praia de quebra-canela. E foi assim, que deixei de reclamar, quase de um dia para o outro, das circunstâncias da vida na cidade da Praia.


As coisas não ficaram melhores de um dia para o outro, obviamente, mas a mudança de perspetiva ajudou a que parecessem melhores. Ir a praia quase todos os fins-de-semana foi tornando uma regra, mudar do Palmarejo para a Achada de Santo António onde tinha o escritório diminuiu o meu contato com os taxistas e sendo, na altura, um bairro com mais gente e comércio que o Palmarejo ajudou a passar mais tempo fora de casa e a conviver, correr todos os dias, fazer a carta de condução e comprar o meu próprio carro deu-me uma outra liberdade. Estas foram as coisas que mudei e que me ajudaram a mudar a perspetiva. Tudo o resto continuava absolutamente igual mas deixou de ser o meu foco e essa é a chave importante, ajustarmos e melhorarmos o que nós temos a nosso favor. Atenção, não disse acomodar, mas ajustar, usar, se preferirem, o que o nosso ambiente nos oferece para sermos mais felizes.


Tenho que confessar que sempre olhei para a cidade da Praia como uma madrasta, mas quando fiz 39 anos fiz uma celebração de vários dias. Não foi uma festa, mas pequenas celebrações com as pessoas que tinham feito parte do meu percurso nessa cidade e fiz uma retrospetiva dos últimos dez anos vividos nesta cidade. Cheguei na cidade da Praia com 28 anos, assim que os meus 29 foram o primeiro aniversário que fiz cá e, deve ser por isso, que os meus 39 tiveram tanto significado. Numa das minhas celebrações, ainda antes do dia do meu aniversário, fui almoçar num restaurante a beira-mar. Foi um longo almoço apenas com o meu companheiro onde não falamos de nada em especial mas havia uma luz maravilhosa sobre a cidade que ao embater na água e parecia algo mágico. Apareceu um rapaz que se sentou numas das rochas a tocar uma guitarra. Era tudo tão simples e ao mesmo tempo tão carregado de significado, um rapaz ao som das ondas e da melodia que tirava da sua guitarra, sozinho naquele cair de sol dourado. As coisas simples comovem-me e fiquei mesmo tocada pela capacidade que o ser humano tem de simplificar, facto que muitas vezes nos esquecemos.

Saímos e fomos dar uma volta na cidade. Era o dia 13 de janeiro, feriado nacional e dia da liberdade e da democracia e a bandeira no palácio da Presidência da República estava hasteada. Olhei para a cidade da Praia e agradeci profundamente a alegria, a felicidade e o amor que tinha colocado na minha vida nestes dez anos.

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